Gótico nos games: do estético à literatura e até à história

Quando bem empregado, costuma ser legal, com cemitérios e caverinhas 💀💀💀


Publicado em 10 de janeiro de 2026.

Este artigo investiga a presença do gótico nos games — dos elementos meramente estéticos às influências mais substanciais, como as da literatura e história —, indica algumas fontes para quem quiser se aprofundar no assunto e, claro, sugere jogos e mods que podem se encaixar satisfatoriamente neste tema.

Tive a ideia para este texto ao ponderar se convém marcar títulos como Last Room com a tag “Gótico“. Percebi que, para além dos calabouços, castelos e caveirinhas, seria ainda mais interessante analisar se há algo na narrativa que de fato tenha a ver com o estilo literário conhecido como gótico. Quem sabe não existe neles também alguma herança dos Godos (ou Goths), o povo germânico associado à queda do Império Romano, aquilo que se deu no início da Idade Média?

Ah! Antes de começar, vale a pena dizer que o que temos aqui não tem a ver com góticas rabudas e muito menos se relaciona àqueles jacus que entram escondidos no cemitério pra beber vinho Chapinha, esse tipo de coisa. Se você não desistir da leitura pela falta das rabudas, vai perceber, meu caro, que o tema tem muito pouco a ver com o sentido raso que contemporaneamente deram à palavra.

Gótico nos games

Quando se fala em “gótico” dentro do universo dos games, quase sempre o termo é empregado em sentido amplo, lato sensu, sem descrever necessariamente uma narrativa gótica clássica, mas uma estética visual e atmosférica típica deste gênero, que remete ao mistério, melancolia e decadência.

São comumente considerados “góticos” jogos que simplesmente apresentam cenários sombrios, ruínas antigas, catacumbas, fortificações, tumbas, estátuas deterioradas, caveiras e torres que se perdem na neblina. Mas não se engane, estes elementos, mesmo sem conexão direta com as obras literárias do século XVIII, ainda podem ser capazes de transmitir a mesma ideia de beleza na ruína e de fascínio pela obscuridade.

Nesta forma, o gótico surge no contraste entre luz e sombra, no silêncio das pedras antigas, no vento que sopra sobre tumbas, nos ecos de uma catedral abandonada etc. Creio que este tipo de atmosfera num game, quando bem empregada, é capaz de evocar a sensação típica do gênero, mesmo que sua narrativa não esteja estritamente dentro do que se pode esperar deste estilo literário.

Então, creio que podemos considerar que títulos como Castlevania, Bloodborne, Blasphemous e Quake (1996) encaixam-se nestes parâmetros sem peso na consciência, mas, claro, sem dar uma de jornalista gamer e inventar que gótico, no contexto dos games, é um gênero em si. Nestes exemplos mesmo, temos ação, RPG, metroidvania, tiro em primeira pessoa, plataforma etc. Eles apenas compartilham entre si essa imagética sombria e melancólica, herdeira de séculos de arte e arquitetura.

Origem do gótico na literatura

A literatura gótica surgiu no século XVIII, com autores como Horace Walpole, Ann Radcliffe e Matthew Lewis, trazendo elementos como o sobrenatural, mistério, decadência e a intrusão do passado no presente. Esses textos muitas vezes contrastavam com os ideais do racionalismo iluminista, que pregava a razão como guia principal da sociedade — embora curiosamente, muitos pensadores do período tivessem interesses esotéricos ou místicos. Imagino se talvez a própria influência do Gótico sobre o Romantismo ajude a explicar, em parte, a reação deste contra o Iluminismo. Vi também uns falando que o gótico seria um proto-romantismo.

Seja qual for o caso, o estilo gótico é caracterizado por um ambiente de medo, exotismo e a ameaça de eventos sobrenaturais em cenários que incluem elementos físicos do passado. Isso se observa especialmente por meio de estruturas medievais em ruínas, que evidenciam a transitoriedade dos humanos e de suas obras e a natureza mutável e inconstante da história. Obras como The Castle of Otranto (1764), de Horace Walpole — considerada a primeira obra de literatura gótica —, não só definiram muitos elementos que seriam repetidos nos séculos seguintes, mas também deixaram um impacto cultural duradouro, inspirando escritores de seus tempos, como Ann Radcliffe (de The Mysteries of Udolpho) e Matthew Lewis (escritor de The Monk). Séculos depois, esta estética acabaria encontrando novo terreno nos videogames, que herdaram — consciente ou inconscientemente — o fascínio pelo sublime e desolado mistério.

Influência no Romantismo

O Romantismo, que floresceu no final do século XVIII e início do XIX, herdou muito da estética gótica — a fascinação pelo desconhecido, pelo passado e pelo irracional —, mas a reinterpretou sob um viés mais humano e subjetivo. Se na literatura gótica o terror vinha sobretudo do ambiente e do sobrenatural, no romantismo emerge também da alma: da angústia, da melancolia e dos conflitos interiores — a transição do medo externo para o drama íntimo — o que marcou o início deste então novo estilo de época.

Acho interessante que o Romantismo também resgatou o passado medieval, não como ruína ameaçadora, mas como um tempo de pureza espiritual e grandeza perdida. Autores como Mary Shelley, em Frankenstein (1818), Edgar Allan Poe e, mais tarde, Bram Stoker, em Drácula (1897), ampliaram os horizontes do gótico, unindo introspecção, emoção e simbolismo ao terror. O “sublime” — esse sentimento de assombro diante do poder da natureza e do desconhecido — tornou-se um dos conceitos centrais dessa fase, onde a beleza e o terror coexistem.

Entre esses autores, Edgar Allan Poe é talvez o elo mais direto entre o gótico clássico e o terror moderno, especialmente por sua escrita introspectiva e psicológica ter influenciado e pavimentado o caminho para H. P. Lovecraft, cuja visão cósmica do horror, desprovida de consolo metafísico, é muitas vezes vista como uma extensão fria e niilista do gótico. Outros escritores posteriores — de Robert Louis Stevenson a Sheridan Le Fanu — também reinterpretaram esse legado, mostrando que a sensibilidade literária do gótico continua a desdobrar se até hoje.

Gótico na história real

Antes de se tornar sinônimo de estética sombria e melancólica (e rabudas em preto e branco), o termo “gótico” designava os Goths, o povo germânico que teve papel central na queda do Império Romano do Ocidente. Historicamente, “godos”, “gotos” e “geats” (ou gautar, gutar, gotar em variantes germânicas antigas) têm raízes muito próximas, embora eu não saiba dizer até que ponto estes nomes podem ser usados adequadamente para se referir a grupos ligeiramente distintos ou se seriam apenas variações linguísticas do mesmo povo. Séculos depois, os renascentistas usariam o termo de modo pejorativo para descrever aquilo que consideravam bárbaro e rudimentar — especialmente a arquitetura medieval anterior que os precedia. Estaria aí a raiz da associação entre o “gótico” e o que é antigo, misterioso e carregado de simbolismo.

Os Geats — povo mencionado no épico Beowulf e com ligação com os Godos — inspiraram diretamente o interesse de J. R. R. Tolkien pela mitologia nórdica, servindo como uma das sementes para o universo da Terra-média. Curiosamente, vi em algum canto que tem pelo menos um nome popular em nosso idioma relacionado a esse tema, “Gustavo”, que tem raízes etimológicas encontradas nos Godos (Gautr ou Gautar, dependendo da origem), e há versões que o interpretam como “protegido dos godos”, “bastão de guerra” ou “forte através de Deus”. Ou seja, um pequeno exemplo de herança linguística discreta que ilustra como esse povo deixou marcas na cultura europeia muito além da política e da guerra.

Com o passar do tempo, a “arquitetura gótica” deixou de ser vista como bárbara e passou a simbolizar a espiritualidade e o mistério da Idade Média, com suas torres, arcos ogivais e vitrais se tornando ícones visuais que mais tarde influenciariam tanto a literatura gótica quanto o imaginário dos videogames. Quando vemos castelos, ruínas e catedrais em Castlevania, por exemplo, estamos contemplando uma herança estética que é sinônimo de beleza, zelo e resiliência, mesmo que ironicamente surgida de uma tentativa de ridicularizar o passado.

Exemplos de games e/ou mods góticos

Não é exatamente frequente, mas a influência gótica nos videogames pode muito além das catedrais sombrias, castelos em ruínas e dos personagens pálidos vestindo preto. Em muitas obras, os temas centrais da literatura gótica — como a decadência moral, o mistério e os ecos do passado interferindo no presente — se manifestam também na estrutura narrativa e na psicologia dos personagens.

Assim como nos romances do século XVIII e XIX, existem jogos que exploram a vulnerabilidade humana diante do sobrenatural, a culpa, a perda e o poder corruptor do conhecimento proibido. Mesmo quando não há fantasmas literais, o gótico aparece na atmosfera emocional, no isolamento das figuras centrais e no senso constante de que algo oculto ameaça romper o equilíbrio.

Até para servir de sugestão, seguem alguns exemplos de games e mods que incorporam o espírito gótico — seja por meio de sua ambientação, narrativa ou pela maneira como traduzem a melancolia e o mistério para o universo interativo:

  • Quake (1996) – Vamos começar logo com o maior de todos aqui. Este clássico da id Software apresenta cenários góticos por excelência — incluindo arenas, castelos e calabouços medievais — num universo que combina também ficção científica, uma trilha sonora sombria e atmosférica e elementos lovecraftianos, algo que foi retomado no Quake Champions (2018), diga-se de passagem. Embora este frenético FPS, graças a Deus, não tenha foco algum em narrativa, sua ambientação entrega toda a sensação de decadência, desolação e das sombras de um passado perdido interferindo num futuro frio. Acho que dá pra dizer que isto se encaixa redondo neste estilo de época.
  • Bloodborne (2015) – Além da arquitetura sombria, ruínas e criaturas grotescas, a história deste action-RPG da FromSoftware aborda corrupção moral, maldições, cultos e a busca obsessiva por conhecimento proibido, lembrando muito o horror gótico clássico e as tramas de Poe ou Lovecraft.
  • Castlevania: Symphony of the Night (1997) – O enredo deste clássico da Konami gira em torno de vampiros, maldições, castelos ancestrais e a luta contra o mal que persiste através das gerações, aproximando-se da narrativa gótica de mistério e decadência.
  • Amnesia: The Dark Descent (2010) – Terror psicológico, inovador e seminal da Frictional Games, com manipulação da mente, segredos sombrios e castelos decadentes, mostrando elementos típicos da literatura gótica: mistério, sobrenatural e decadência moral.
  • Blood (1997) – Este clássico shooter da Monolith Productions mescla humor negro, referências ao ocultismo e ambientações inspiradas em cemitérios, catedrais e mansões decadentes. Seu enredo acompanha Caleb, um pistoleiro ressuscitado que busca vingança contra um culto demoníaco, incorporando temas de morte, profanação e ironia macabra. O jogo recebeu duas versões oficiais remasterizadas pelos Nightdive StudiosBlood: Fresh Supply (2019) e Blood: Refreshed Supply (2025) — além de vários ports e mods da comunidade para outros engines.
  • Darkest Dungeon (2016) – Além da estética sombria, neste game da Red Hook Studios, há uma narrativa de desespero, loucura e decadência moral, com foco na luta contra horrores ocultos em masmorras, inspirado em temas de medo e fragilidade humana do gótico.
  • The Cat Lady (2012) Point-and-click com forte narrativa gótica da Harvester Games: depressão, isolamento, morte e criaturas sobrenaturais permeiam a história, explorando o lado psicológico do gótico.
  • Fran Bow (2015) – Este título da Killmonday Games AB mistura de horror psicológico e fantasia sombria, com enredo envolvendo morte, perda, sanidade instável e elementos sobrenaturais, seguindo a tradição de contos góticos.
  • Thief: The Dark Project (1998) – Pioneiro do stealth em primeira pessoa, este clássico dos Looking Glass Studios combina arquitetura medieval, sombras e uma atmosfera trevosa que mistura fantasia e decadência urbana. As intrigas, cultos secretos e ambientação opressiva fazem de Thief uma experiência essencialmente gótica. Há também um reboot da série que este game deu início, meio Dishonored.
  • Clive Barker’s Undying (2001) – Produzido pelo próprio autor mais famoso pela franquia Hellraiser, este FPS sobrenatural da EA mistura mansões decadentes, heranças malditas e forças ocultas. É uma das interpretações mais literárias do gótico nos games, apresentando narrativa densa e atmosfera carregada.
  • Hollow Knight (2017) – A aventura metroidvania da Team Cherry combina visual melancólico, ruínas subterrâneas e ecos de uma civilização perdida. O silêncio, a solidão e o tom poético reforçam o sentimento gótico de decadência e transcendência.
  • Sunless Sea (2015) – Da Failbetter Games, este roguelike narrativo ambientado num oceano subterrâneo apresenta uma Londres vitoriana alternativa, com uma pegada steampunk, onde o isolamento, o mistério e o desespero se entrelaçam em uma prosa gótica de exploração e fatalismo.
  • Dante’s Inferno (2010) – Inspirado em A Divina Comédia, este jogo da Visceral Games conduz o jogador por um inferno repleto de ruínas, penitências e pecados encarnados. A grandiosidade trágica, o simbolismo religioso e o sofrimento redentor o tornam uma releitura moderna do gótico espiritual. Melhor confessar logo e escapar de cair num lugar destes.
  • Nosferatu: The Wrath of Malachi (2003) – Este survival horror da Idol FX dialoga diretamente com a tradição literária que moldou esse estilo, incorporando elementos de Drácula, de Bram Stoker, o expressionismo sombrio do clássico Nosferatu de F. W. Murnau e o vampirismo aristocrático inaugurado por Polidori em The Vampyre.

Mods góticos pra Doom

Seguem algumas modificações presentes em nosso site para o clássico da id Software, algo que não poderia faltar, com temática e/ou ambientação gótica:

A permanência do gótico

O que começou como uma tentativa renascentista de debochar do Medievo transformou-se em uma das expressões mais ricas da cultura ocidental, reencarnando sucessivamente na literatura, na arte, no cinema, revistas em quadrinhos e, por fim, nos videogames. Em qualquer uma destas mídias, o gótico ainda encontra terreno fértil para continuar sua função original: confrontar o humano com o mistério, a decadência e o desconhecido.

Poeticamente falando, trata-se de um estilo que nos lembra de que há beleza na ruína, grandeza na melancolia e um tipo peculiar de esperança na escuridão. No mundo dos videogames, mais importante pra nós aqui, podemos ver isso nas torres enevoadas de Castlevania, nas ruínas infectadas de Bloodborne, nos corredores úmidos de Thief e até na arquitetura ciclópica desolada do grande Quake. E isto vai além da ambientação: é a continuidade de um olhar antigo sobre o homem e o abismo, uma tradição estética que, por vias tortas, continua a nos ensinar que o medo, a dúvida e o mistério não são sinais de fraqueza — mas de consciência.

Aliás, ao trabalhar neste artigo, também me ocorreu que o gótico nunca deixou de existir. Claro, não é mais um movimento literário e muito menos alguma modinha, mas algo que em essência não mudou de forma. Talvez também — e isso é apenas um palpite bem palpitado mesmo meu — o gótico tenha se tornado algo quase natural, difuso na cultura, e que sua influência sobre o Romantismo tenha sido apenas o início de um processo mais profundo: o de um marco duradouro no imaginário ocidental. Digo isso pois percebi que não é tão simples fazer um checklist de características e decidir se uma obra é ou não gótica, o que me dá a impressão de que houve uma assimilação silenciosa, natural, orgânica. Ou seja, o gótico teria se tornado uma constante silenciosa na forma como o homem ocidental representa — consciente ou não — o mistério, a ruína e o sublime.

Mas, como eu disse, isso é só um achismo. Deixe nos comentários o que você achou desta resenha toda.

Abraços!

Mais informações e matérias

Referências e mais leituras

Nesta seção, você encontra sugestões para se inteirar mais sobre este assunto, incluindo links e fontes consultadas. Deve ter um pouco de tudo o que foi falado aqui, incluindo literatura, história, estética. Se você estudar estas fontes e tiver algo errado aqui pra corrigir neste post, não hesite em comentar pra gente acertar os ponteiros:

Referências literárias

Até parece que eu li isso tudo, mas olha como te sugerir e direcionar a essas obras enriquece o post:

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